Próximo presidente argentino
Fui surpreendido nas últimas horas por uma enchurrada de vídeos das Barras Bravas argentinas. O que chama atenção é que nenhum deles era de caráter, digamos, amador. Todos foram produzidos por empresas de TV daquele país e reproduzidos em canais regulares argentinos. Em comum a todos eles, a prerrogativa de entrar no submundo desconhecido desse tipo de torcida. Mas, pensando bem, o fim acaba sendo outro muito diferente.
A quem serve reportagens como esta, que se propõe a acompanhar o líder da torcida xeneize, Rafael Di Zeo, desde os praparativos matutinos até o final do clássico contra o River no Monumental de Nuñes? Serve como denúncia, como retrato sociológico, serve como mera curiosidade ou apenas para a autopromoção do sujeito ao ponto de torná-lo um ídolo?
Di Zeo é acusado de associação ilícita, falsificação de documentos, agressão, tentativa de homícido agravada, abuso de armas, entre outras proezas. No entanto, é reconhecido pelo público como um líder e serve de referência positiva para a parcela demente da imprensa argentina e grande parte da torcida. Numa pesquisa rápida no google, não é difícil encontrar fotologs de pré-adolescentes ostantando fotografias ao lado do hincha chefe. Mas Di Zeo demonstra sua popularidade de outras maneiras mais, além de distribuir autógrafos e cumprimentos até para crianças e policiais. Na final da Copa Sul-Americana do ano passado, contra o Pumas, ele foi o responsável pelo controle do acesso dos torcedores em um dos portões da Bombonera: devido à superlotação, dava a palavra final sobre quem podia ou não entrar no estádio. Num amistoso contra o Chacarita, em 2003, também no campo do Boca, mandou abrir o portão que separava as duas torcidas e comandou o espancamento dos rivais.
À medida que por estas terras muito se copia o que vem do outro lado do Prata, convém abrir o olho. Quando muitas atenções se voltam para um fenômeno como é esta torcida emergente do Grêmio, sempre há quem tente aparecer em frente a ela no afã de tornar-se protagonista. Ainda que coisas como esta comecem inariavelmente com um inofensivo pavoneamento, quase sempre vão muito mais além. E minha preocupação se acentua quando vejo que, de uma forma ou de outra, sempre há gente pronta pra tirar algum proveito político destes comandantes da massa, exatamente como acontece por aqui.


