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O que é o futebol, afinal?

crianças jogando bola na chuvaPode parecer uma pergunta idiota, mas penso que grande parte do atrito corrente entre imprensa, torcida e clubes de futebol remonta exatamente do princípio, da visão que cada uma dessas instâncias tem sobre o esporte.

A concepção de futebol defendida pela imprensa é a do espetáculo, e no espetáculo, como sabemos, não há vencedores ou perdedores, apenas uma apresentação mais ou menos agradável de se assistir. Daí o surgimento de terminologias como o futebol-arte, o joga-bonito e tantas outras tentativas de enquadrar o esporte bretão no campo genérico do entretenimento. Por aí se explica também o comportamento submisso da imprensa em sua cobertura futebolística. As partidas são tratadas como peças de teatro ou estréias de cinema, já que a lógica da promoção sempre prevalece sobre a do jornalismo. Até porque o futebol é um dos grandes propulsores econômicos da própria imprensa, e não faria sentido diminuir seu mais caro produto. Decorrem também daí campanhas ferrenhas da mídia para a transformação dos estádios em centros de entretenimento superconfortáveis e destinados a um público consumidor de maior poder aquisitivo, para acabar com os palavrões e demais comportamentos de pobre dentro do campo, para favorecer times de maior número de torcedores (leitores/telespectadores), etc. Assim se faz do futebol um negócio mais interessante. Isso traz consigo idéias de que o melhor jogo é o mais bonito, não o mais disputado, ou aquele com mais gols em detrimento do mais bem jogado.

Já a idéia do torcedor é oposta. Não há espetáculo, mas disputa. Não é errado afirmar que a concepção da torcida é a mais próxima da idéia essencial de todo esporte: um simulacro da guerra. Em última instância, o que importa é sair vitorioso. Assim, as circunstâncias que levam seu time até esta vitória não têm maior relevância. Elementos como diferença de gols, domínio da partida e, é preciso dizer, eventuais burladas nas regras do jogo não fazem nenhuma diferença após o apito final do árbitro desde que o objetivo tenha sido conquistado. O futebol é guerra e o torcedor é soldado raso tentando manter-se vivo a cada rodada. Torcedor este para qual a promoção de uma partida não representa nenhuma motivação extra. Ele sabe julgar a importância de cada jogo e busca, na verdade, apenas informação sobre o oponente. No entanto, as motivações que levam o torcedor ao estádio são diferentes daquelas que levam o imigrante porto-riquenho à guerra. São, antes, mais próximas àquelas que superlotaram os campos de batalha durante as Cruzadas.

Os dirigentes de hoje, tal como os líderes que comandam as guerras do nosso tempo, têm um vínculo duplo nessa questão, uma vez que apenas vencer a guerra já não basta, é preciso dela obter lucro e capital político. Neste sentido, os cartolas estão muito mais para Condoleezza Rice e Ahmadinejad do que para os Papas do século XII. Assim como na guerra que se faz hoje, também o futebol tem servido para formar e consolidar lideranças políticas à custa do soldado/torcedor, que acaba se tornando instrumento a serviço de um projeto de poder de uma pessoa ou de um pequeno grupo. Isto se configura quando o presidente de um clube se elege a um cargo público utilizando a máquina administrativa deste, e barganhando o uso de sua base de torcedores como cabos eleitorais. Mas o principal motivo pelo qual esse vínculo duplo não se rompe é a necessidade financeira de equilibrar duas visões antagônicas de futebol. É preciso compreender que ele só existe e tem a dimensão que tem hoje em função do torcedor, cujo interesse se concentra na disputa. No entanto, o futebol é cada vez menos consumido nos estádios, mas através da televisão como intermediária, uma instituição que precisa necessariamente atingir uma parcela de consumidores muito maior do que a fatia de torcedores de determinado clube, e que vê na transformação do esporte em espetáculo a saída mercadológica para resolver o SEU problema.

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