Memistória (meme + história) foi como o professor Alex Primo, da UFRGS, batizou uma experiência de escrita colaborativa iniciada ontem em seu blog. Funciona assim, resumidamente: ele publicou um começo de história em seu blog, e logo abaixo indicou quem irá continuá-la através de um link; essa pessoa então escreve a segunda parte no próprio blog e a coisa flui como se fosse uma corrente, cada um escreve o seu trecho na sua vez, no seu blog, e “passa adiante”. Por fim, para ler essa obra de múltiplos autores que, pode ser, nunca acabe, o leitor deve ir seguindo o caminho deixado pelos links.
Conheço esse tipo de manifestação superficialmente, minha referência é o projeto A Million Penguins, wiki-novel vinculada à editora Penguim que tentei ler em algum momento do ano passado. Não tenho, no entanto, quase nenhum embasamento técnico-científico pra falar sobre o assunto de maneira mais aprofundada. Ainda assim, enquanto leitor E enquanto produtor de conteúdo (seja aqui no blog, seja no jornal durante a jornada normal de trabalho, seja nas minhas brevíssimas incursões errantes pela literatura), me sinto impelido a opinar.
No meu ponto de vista, para o leitor, práticas como esta proporcionam uma leitura drasticamente pobre e muito aborrecida. Se a experiência pode ser interessante (sobretudo para quem pesquisa o assunto) pelo viés da forma como é publicado, da multiplicidade autoral e da veiculação fragmentada (agora em espaços diferentes), a tentativa de acompanhar o A Million Penguins já se mostrara absolutamente sofrível, e agora a Memistória segue rapidamente o mesmo caminho. No segundo capítulo já há um "acerto final"; todo mundo quer dar termo ao que é contado. Parece que o que está contido não importa, mas só o modo como é desenvolvido e entregue. Ninguém lê livros (ou blogs, documentos digitais) apenas para sentir a textura das páginas, embora isso faça parte da experiência como um todo. O que importa é a promessa ligada diretamente ao conteúdo: vou encontrar aqui conhecimento, ou medo, sentimento de nostalgia, surpresa, humor, etc. Por isso acho esse tipo de iniciativa difícil de engolir.
Mas então pensei: será que o resultado tão ruim é fruto simplesmente da incompetência dos autores em escrever ficção, já que a maior parte do conteúdo é produzido por quem não é habituado (e treinado) a tal?
Acho que não. Tenho certeza que grande parte dos autores que participam dessas iniciativas não se sairiam mal se tentassem sozinhos. Mas (e isso me parece claro) penso que é impossível produzir qualquer texto coerente sem saber minimamente aonde se quer chegar.
Para comprovar (ou provar totalmente equivocada) essa minha idéia, resolvi iniciar um percurso paralelo ao proposto pelo Alex, mas com uma diferença: ao invés de textos inventados pelos blogueiros, só serão acrescentados à história trechos produzidos por autores de “reconhecida competência literária”, ligados uns aos outros de maneira a tentar produzir uma história coerente e com sentido (ou não, ao gosto dos autores). Tenho certeza que a leitura será tão aborrecida quanto todas as outras, se não pior, e então não haveremos de culpar Borges, Hemingway nem Homero pelo fracasso daquilo que será proporcionado aos leitores.
Veremos no que vai dar a brincadeira. Seria fabuloso se as histórias se cruzassem pelos mesmos autores.
Copiando Alex despudoradamente, lanço, então, as bases:
QUASE A MEMISTÓRIA
Chamarei de Quase A Memistória um processo de escrita coletiva em que uma ficção é escrita colaborativamente entre blogs. Cada participante escreve um post com uma pequena parte da história, que deve necessariamente ter sido escrita originalmente por um autor de “reconhecida competência literária”. Após escrever um trecho, o blogueiro indica em qual blog (ou em quais blogs, no caso de bifurcação da história) a ficção continua, bem como a referência do trecho publicado. Além de uma prazerosa e criativa atividade, ganha-se uma oportunidade de conhecer diferentes blogs.
Veja a seguir um passo a passo de como criar e participar em memistórias:
* o primeiro blogueiro escreve a introdução da história e cria um título indicando o número do episódio (ex.: Quase A Memistória: Exemplo de título - episódio 1);
* logo após, escolhe um amigo que possua blog e lhe escreve informando que ele foi selecionado para continuar a trama;
* o primeiro, termina seu post indicando o link (e posteriormente o permalink) do blog onde a continuação da história pode ser encontrada;
* o blogueiro seguinte deve fazer o mesmo: entrar em contato com um novo participante e indicar o local do novo episódio da história;
* os leitores podem incluir comentários pedindo para ser incluídos na história. Por outro lado, se alguém imaginou outro desenrolar para a trama, pode avisar na interface de comentários que bifurcou a história e escreveu uma continuação alternativa em seu próprio blog (devendo informar, claro, o permalink de seu texto). Nestes casos, o autor do trecho que foi bifurcado deve incluir referência aos caminhos alternativos ao final de seu post;
* ao final de cada texto escrito, é importante incluir um link para o primeiro episódio, para que os novos leitores possam acompanhar a história desde seu princípio.