Riscar é humano
Fico impressionado com o conservadorismo daqueles que não riscam livros. Sinceramente, não consigo pensar em nenhum argumento contrário a tal prática que não seja um pedido expresso daquele que emprestou o exemplar.
No caso de livros de bibliotecas públicas, sublinhar, anotar e comentar é mais que um favor, é um ato de grandeza, mesmo de compaixão com o próximo.
Fato é que o terrível lápis do leitor-riscador é capaz de quebrar a sacalidade de uma leitura mais modorrenta, ou mesmo recolocar o autor em seu devido lugar, estabelecendo diálogos os mais improváveis e sensacionais, como o que li hoje:
Ao lado de um parágrafo do mais absurdo hermetismo idiota acadêmico, daqueles intraduzíveis pelo simples motivo que não fazem qualquer sentido e não querem comunicar nada, mas apenas preencher linhas, uma alma enlevada e superior marcou um sinal de chaves e, na margem, de certo recobrando o espírito dos grandes debates, desferiu o argumento fatal, que geralmente começa a fazer suas vítimas no recreio do ensino fundamental mas por toda a vida será capaz de rebater qualquer coisa: “DÃ!”
Claro, pode-se aderir a certos códigos de conduta mais, digamos, assisbrasílicos, de riscar apenas a lápis qualquer texto que não seja de autoria própria, mas isto é outra história. Mesmo grafado com caneta marca-texto, a humanidade não tem como prescindir do poder aniquilador do “Dã!” escrito.


