Riscar é humano
Fico impressionado com o conservadorismo daqueles que não riscam livros. Sinceramente, não consigo pensar em nenhum argumento contrário a tal prática que não seja um pedido expresso daquele que emprestou o exemplar.
No caso de livros de bibliotecas públicas, sublinhar, anotar e comentar é mais que um favor, é um ato de grandeza, mesmo de compaixão com o próximo.
Fato é que o terrível lápis do leitor-riscador é capaz de quebrar a sacalidade de uma leitura mais modorrenta, ou mesmo recolocar o autor em seu devido lugar, estabelecendo diálogos os mais improváveis e sensacionais, como o que li hoje:
Ao lado de um parágrafo do mais absurdo hermetismo idiota acadêmico, daqueles intraduzíveis pelo simples motivo que não fazem qualquer sentido e não querem comunicar nada, mas apenas preencher linhas, uma alma enlevada e superior marcou um sinal de chaves e, na margem, de certo recobrando o espírito dos grandes debates, desferiu o argumento fatal, que geralmente começa a fazer suas vítimas no recreio do ensino fundamental mas por toda a vida será capaz de rebater qualquer coisa: “DÃ!”
Claro, pode-se aderir a certos códigos de conduta mais, digamos, assisbrasílicos, de riscar apenas a lápis qualquer texto que não seja de autoria própria, mas isto é outra história. Mesmo grafado com caneta marca-texto, a humanidade não tem como prescindir do poder aniquilador do “Dã!” escrito.



Não faz sentido riscar livros que não sejam teus.
Faz menos ainda quando os livros são meus.
Comment by Dodô — 5 May, 2009 @ 4:06 pm
Não riscar um livro é tratá-lo com distanciamento. Riscar o livro é absorver ele.
Mas eu só risco os meus.
Comment by Samir Machado — 8 May, 2009 @ 7:46 pm
Não risco livros. Acho que é preguiça.
Também não riscaria livros alheios. Acho que é respeito.
Mas sempre fui um adorador do termo “Dã”. Ele realmente diz muita coisa.
Comment by Luciano Pyw — 11 May, 2009 @ 11:41 am
Lendo um livro de biblioteca, encontrei um post-it com uma anotação colado em uma página. Achei simpático e menos agressivo do que um risco.
Comment by Interaubis — 21 June, 2009 @ 5:01 pm
ler sem riscar o livro é não ler.
O leitor tem a obrigação de se apropriar do texto, marcando o fundamental, o que toca, o que faz diferença, o que é único…Por isso não gosto de livro que não é meu. DÃ!!
Comment by carmen silveira — 21 June, 2009 @ 5:50 pm
Concordo que riscar torna a leitura mais íntima. Vai desbravando os caminhos do livro além de facilitar o retorno às partes mais relevantes.
Contudo, acho errado impor a outro leitor o caminho que eu faço (ao fazer o outro leitor seguir meus rabiscos).
Além de manipulador, acaba sendo muito chato quando se discorda da marcação alheia.
Poucas vezes achei a marcação alheia poética. Nas outras vezes, acabava por ser uma agressão ao meu próprio caminho no livro.
Ok, isso pode parecer purista mas se quero saber a opinião de alguém sobre um livro ou passagem, prefiro ter a liberdade de escolher se quero perguntar ou a quem quero fazê-lo.
Risco meus livros a lápis.
Caneta marca-texto acaba impondo um caminho de leitura muito definitivo. Nunca releio um livro com o mesmo olhar de antes. Quero fazer novas marcações. Quero apagar marcações antigas e construir uma nova história com a leitura em questão.
Gostei do texto, principalmente a parte do argumento mais irrefutável do mundo. ;)
Comment by Mariana — 21 June, 2009 @ 6:33 pm