Quando crianças, procuramos sempre o sentido exato das coisas. Se alguém fala “Gustavo é um monstro”, então nele crescem imediatamente pêlos, dentes afiados, garras e um par de chifres. Não há espaço para relativizações de nenhuma espécie.
A idade vem e, junto com o passar dos anos, passa também a fase em que tudo aquilo quer dizer exatamente o que foi dito. O subentendido, junto com as ironias, sarcasmos, mentirinhas e demais complicadores são anexados ao conjunto de possibilidades, junto com a verdade.
Mais o tempo passa e as verdades (que antes consistiam na única possibilidade) são extintas em favor de uma relativização absoluta de todas as coisas. Se anteriormente tudo era verdade, agora nada mais pode ser, um sentido original não existe, o correto não passa de mero ponto de vista. E, convenhamos, não é fácil acordar segunda-feira de manhã sabendo que, literalmente, segunda-feira não precisava existir. Para evitar esse tipo de aborrecimento, inventou-se a ciência.
A ciência, irmã da religião, tem como único propósito brecar qualquer possibilidade de pensamento. E isso se dá através de uma visão de mundo totalmente infantilizada, onde o correto e o errado, a verdade e a mentira, têm de estar sempre sublinhados para evitar a fadiga. Tal como crianças de três anos aprendendo as palavras, ouvimos que a diferença entre homens e chimpanzés é de apenas um cromossomo e meio e acreditamos, depois repetimos, e balizamos tudo o mais nesse tipo de afirmação sem nenhum sentido.
As coisas nos são apresentadas imutáveis, perfeitas, enquadradas em esquemas que deveriam nos parecer inacreditáveis, e jamais são devidamente explicadas até o fim, sob o argumento de que são complicadas demais. Mas não há nenhum motivo para se acreditar, por exemplo, que ovo frito fez mal para a saúde até 2004 e depois nem tanto assim, que o benefício do vinho vá além do relaxamento momentâneo e do gosto bom, que a própria genética tenha a importância tão crucial que lhe é conferida hoje em dia, assim como não há nenhum motivo para aplicarmos a matemática em mais do que uma ou duas situações totalmente pontuais e de exceção.
Tendemos a aceitar o disparate de que 4 bananas têm valor inferior a 5 bananas e ponto final, numa tentativa de desvalorizar as escolhas do chimpanzé, que sabe há milênios que isso depende. Talvez se ele quiser usá-las como armas para jogar contra você, leitor, que foi ao zoológico e o está aborrecendo tirando fotografias com seu celular novo através das grades, isso seja verdade. Mas não se ele estiver faminto e preferir as frutas gigantes ao invés das nanicas. “4” e “5” não significam coisa alguma sozinhos, aplicados a toda sorte de categoria como o fazemos na tentativa de planificar coisas tão absurdamente diferentes quanto esses dois conjuntos de bananas que citei antes. E perderiam ainda mais sentido se alguém tivesse se dado conta de que aquelas cascas de banana, apesar de possuírem o formato clássico em meia-lua gordinha, podem simplesmente não conter nada em seu interior.
Um jogador de futebol decide o campeonato e recebe nota 9 na resenha do jornal, a escola de samba tira 9,8 no quesito bateria e perde o campeonato, o gênio precoce que não vai a aula alguma e o ranhento diabólico domado por ritalina são 10 em Estudos Sociais.
Se crescer é relativizar, já deveríamos ter abandonado essa visão de mundo tão normatizada. Conferir esse tipo de sentido às coisas não passa de um reflexo meramente infantil. Este texto, por exemplo, não serve para o que você está pensando, caro leitor, seja lá o que você esteja pensando.
Buscar um sentido para a vida é tão importante quanto contabilizar bananas. Sua missão na Terra, é bem provável, seja povoá-la por um tempo determinado tentando entender a sua missão na Terra, até que sua missão na Terra acabe. E se você falhar, mesmo que nunca venha a ficar sabendo que falhou, não fará diferença nenhuma. Simplesmente porque a diferença entre falhar e ter êxito depende de haver certo e errado. E só a religião, a ciência e as crianças acreditam nessas bobagens. Os chimpanzés, tal como as pessoas crescidas, não.
* Texto escrito há cerca de muitos vários meses, sob encomenda de Eduardo Menezes, que não pagou por ele e agora teve que devolvê-lo.