Idoso de férias

De hoje até depois do carnaval, este blog estará de férias, parado, inoperante. Ao contrário do que a maioria dos blogueiros faz, resolvi não programar posts para o período com conteúdo atemporal. Ao invés disso, deixo com vocês uma linda foto para que possam apreciar a cada vez que entrarem aqui e não encontrarem nada de novo - e escancaro que este post é apenas uma desculpa esfarrapada para publicá-la.

Até a volta.

 


O progresso vem a galope

Há alguns meses, no final de 2008, ouvi um spot publicitário no rádio que dizia: "Supermercados Zaffari agora aceitam cartões de crédito". Fiquei incrível, pensando se, dado o adiantado da hora (2008), não seria uma estratégia menos constrangedora simplesmente fingir que essa opção de pagamento sempre fora aceita desde… sei lá… desde 1990. Constrangedora não só para a empresa, mas para todos os gaúchos, afinal de contas, é o supermercado amado e preferido por 11 em cada 10 prendas e gaudérios.

Mas como diz o ditado, antes tarde do que nunca.

Ou não. Por aqui, para muitas coisas, o nunca prevalece, ao menos por enquanto.

Por exemplo, ainda aguardo o dia em que vou ouvir um spot publicitário do supermercado concorrente dizendo: "Nacional 24 Horas agora funciona vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana". Talvez isso até já aconteça, mas ainda não foi o suficiente para me fazer esquecer do susto de vê-lo fechado, certa noite, num feriado.


Um caminhão de prêmios

Demos partida, hoje, para o Bolão do Oscar 2009, lá no blog do CineSemana.

Pra quem gosta de cinema, é sempre uma boa pedida.

Pra quem gostar de tentar ganhar coisas grátis, também.

Participem. Valeu.


Chimpanzés em crise existencial

Quando crianças, procuramos sempre o sentido exato das coisas. Se alguém fala “Gustavo é um monstro”, então nele crescem imediatamente pêlos, dentes afiados, garras e um par de chifres. Não há espaço para relativizações de nenhuma espécie.

A idade vem e, junto com o passar dos anos, passa também a fase em que tudo aquilo quer dizer exatamente o que foi dito. O subentendido, junto com as ironias, sarcasmos, mentirinhas e demais complicadores são anexados ao conjunto de possibilidades, junto com a verdade.

Mais o tempo passa e as verdades (que antes consistiam na única possibilidade) são extintas em favor de uma relativização absoluta de todas as coisas. Se anteriormente tudo era verdade, agora nada mais pode ser, um sentido original não existe, o correto não passa de mero ponto de vista. E, convenhamos, não é fácil acordar segunda-feira de manhã sabendo que, literalmente, segunda-feira não precisava existir. Para evitar esse tipo de aborrecimento, inventou-se a ciência.

A ciência, irmã da religião, tem como único propósito brecar qualquer possibilidade de pensamento. E isso se dá através de uma visão de mundo totalmente infantilizada, onde o correto e o errado, a verdade e a mentira, têm de estar sempre sublinhados para evitar a fadiga. Tal como crianças de três anos aprendendo as palavras, ouvimos que a diferença entre homens e chimpanzés é de apenas um cromossomo e meio e acreditamos, depois repetimos, e balizamos tudo o mais nesse tipo de afirmação sem nenhum sentido.

As coisas nos são apresentadas imutáveis, perfeitas, enquadradas em esquemas que deveriam nos parecer inacreditáveis, e jamais são devidamente explicadas até o fim, sob o argumento de que são complicadas demais. Mas não há nenhum motivo para se acreditar, por exemplo, que ovo frito fez mal para a saúde até 2004 e depois nem tanto assim, que o benefício do vinho vá além do relaxamento momentâneo e do gosto bom, que a própria genética tenha a importância tão crucial que lhe é conferida hoje em dia, assim como não há nenhum motivo para aplicarmos a matemática em mais do que uma ou duas situações totalmente pontuais e de exceção.

Tendemos a aceitar o disparate de que 4 bananas têm valor inferior a 5 bananas e ponto final, numa tentativa de desvalorizar as escolhas do chimpanzé, que sabe há milênios que isso depende. Talvez se ele quiser usá-las como armas para jogar contra você, leitor, que foi ao zoológico e o está aborrecendo tirando fotografias com seu celular novo através das grades, isso seja verdade. Mas não se ele estiver faminto e preferir as frutas gigantes ao invés das nanicas. “4” e “5” não significam coisa alguma sozinhos, aplicados a toda sorte de categoria como o fazemos na tentativa de planificar coisas tão absurdamente diferentes quanto esses dois conjuntos de bananas que citei antes. E perderiam ainda mais sentido se alguém tivesse se dado conta de que aquelas cascas de banana, apesar de possuírem o formato clássico em meia-lua gordinha, podem simplesmente não conter nada em seu interior.

Um jogador de futebol decide o campeonato e recebe nota 9 na resenha do jornal, a escola de samba tira 9,8 no quesito bateria e perde o campeonato, o gênio precoce que não vai a aula alguma e o ranhento diabólico domado por ritalina são 10 em Estudos Sociais.

Se crescer é relativizar, já deveríamos ter abandonado essa visão de mundo tão normatizada. Conferir esse tipo de sentido às coisas não passa de um reflexo meramente infantil. Este texto, por exemplo, não serve para o que você está pensando, caro leitor, seja lá o que você esteja pensando.

Buscar um sentido para a vida é tão importante quanto contabilizar bananas. Sua missão na Terra, é bem provável, seja povoá-la por um tempo determinado tentando entender a sua missão na Terra, até que sua missão na Terra acabe. E se você falhar, mesmo que nunca venha a ficar sabendo que falhou, não fará diferença nenhuma. Simplesmente porque a diferença entre falhar e ter êxito depende de haver certo e errado. E só a religião, a ciência e as crianças acreditam nessas bobagens. Os chimpanzés, tal como as pessoas crescidas, não.

* Texto escrito há cerca de muitos vários meses, sob encomenda de Eduardo Menezes, que não pagou por ele e agora teve que devolvê-lo.


Caminho de Volta

Começou. A nova novela das oito, Caminho das Índias, vai repopularizar a dança do ventre, emplacar meia-dúzia de expressões idiotas, mostrar um bando de milionários machistas planejando casamentos forçados e vai ignorar o principal: Márcio Garcia em Nova Déli escovando os dentes com água mineral pra não ter diarréia.

Isso seria motivo suficiente para os indianos decidirem testar sua bomba atômica em cima de nós, mas como atingiriam muitas vacas, acabaremos, como sempre, sendo poupados. Um bom método de retaliação seria usar todo o poderío de Bollywood e responder no mesmo nível o nosso desaforo: uma telenovela indiana retratando os brasileiros.

Já consigo imaginar aquele monte de brasileiros acordando ao meio-dia, de ressaca, mas pulando da cama e fazendo embaixadinhas com as roupas, que em chutes certeiros vão voando para suas prateleiras dentro dos armários, as bolas de meia acertando em cheio as gavetas com lances de letra e calcanhar, ao passo que muita ginga garante que bermudas brancas e camisas floridas vão se encaixando nos corpos suados mas sem muito fedor. Esses brasileiros sobrancelhudos que moram no Copacabana Palace vão a pé (às vezes numa fila de conga), rebolando e jogando os chapéus pra cima, até o ambiente de trabalho, na Avenida Paulista, logo ao lado.

Nos escritórios, as secretárias ostentando bundões enormes e piercings nos umbigos escondidos entre dobras e cheios de cáca (o equivalente da pinturinha indiana entre os olhos) esperam o expediente de duas horas ter fim. Quinze minutos antes, já começam a se despir e sopram beijinhos para os chefes, grandes empresários plantadores de cana de açucar, cafeicultores ou cortadores de pau-brasil.

Quando faz sol, os moradores de prédios inteiros se preparam, juntos, para ir à praia. Já saem dos elevadores os brasileiros, todos bigodudos e de óculos escuros, encoxando as brasileiras, com seus mini-véus cobrindo apenas metade das nádegas, com pedaços de barbante enfiados nos rabos (única parte verossímil e bem pesquisada).

A vinheta de abertura da novela já está pronta, e mostra uma típica brasileira se preparando para ser madrinha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel. Veja:




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